Reino Unido aprova dois remédios a base de cannabis

Dois medicamentos à base de cannabis, usados ​​para tratar epilepsia e esclerose múltipla, foram aprovados para uso pelo Departamento de Saúde e Assistência Social da Inglaterra, o NHS.

Instituições de caridade receberam bem a iniciativa, embora alguns ativistas que lutam pelo acesso à planta tenham dito que ela não foi suficientemente longe.

Ambos os medicamentos foram desenvolvidos no Reino Unido, onde também são cultivados.

Os médicos poderão prescrever Epidyolex, para crianças com dois tipos de epilepsia grave – síndrome de Lennox Gastaut e síndrome de Dravet – que podem causar múltiplas convulsões por dia.

Os ensaios clínicos demonstraram que a solução oral, que contém canabidiol (CBD), pode reduzir o número de convulsões em até 40% em algumas crianças.

O Epidyolex foi aprovado para uso na Europa em setembro, mas, no texto de orientação, o NICE (Instituto Nacional de Saúde e Assistência Social) disse inicialmente que não era uma opção econômica.

Custa entre 5.000 e 10.000 libras por paciente a cada ano – mas o fabricante, GW Pharmaceuticals, concordou com um preço mais baixo com o NHS.

Estima-se que existam 3 mil pessoas com Dravet e 5 mil com síndrome de Lennox Gastaut na Inglaterra. A droga não contém o principal componente psicoativo da cannabis, o THC.

As decisões sobre a disponibilidade de medicamentos são distribuídas em todo o Reino Unido, mas as orientações do NICE também devem ser aplicadas no País de Gales e na Irlanda do Norte. A Escócia pode seguir o exemplo no próximo ano.

O outro tratamento, Sativex, é um spray para a boca que contém uma mistura de THC e CBD.

Foi aprovado para o tratamento de rigidez e espasmos musculares, conhecidos como espasticidade, na esclerose múltipla. Mas os médicos não poderão prescrevê-lo para tratar a dor.

Foi o primeiro medicamento à base de cannabis a ser licenciado no Reino Unido após testes clínicos e está disponível no NHS no País de Gales desde 2014. Custa cerca de 2.000 libras por ano por paciente.

Naquela época, os reguladores da Inglaterra disseram que não era rentável, mas agora essa decisão foi revertida. Também deve estar disponível na Irlanda do Norte.

Qual tem sido a reação?

A professora Helen Cross, consultora em neurologia pediátrica do Great Ormond Street Hospital, que liderou os testes britânicos do Epidyolex, disse que são “ótimas notícias”.

“As síndromes de Dravet e Lennox Gastaut são epilepsias complexas e difíceis, com opções limitadas de tratamento eficaz, e isso dá aos pacientes outra opção … que pode fazer a diferença no tratamento”, disse ela.

Galia Wilson, presidente da Dravet Syndrome UK, disse: “Muitas famílias vêm até nós perguntando sobre o potencial de medicamentos à base de cannabis, particularmente o canabidiol, e estamos entusiasmados que um já esteja disponível no NHS”.

Mas nem todo mundo é feliz. Muitos pais de crianças com epilepsia estão pagando milhares de libras por mês por medicamentos importados da Europa e do Canadá que contêm THC e CBD.

Eles relataram reduções drásticas no número e na gravidade das convulsões em seus filhos e estão furiosos porque o NICE não aprovou nenhum medicamento à base de cannabis para epilepsia infantil que contém os dois componentes.

O grupo de campanha, End Our Pain, disse que as novas diretrizes são uma “grande oportunidade perdida”.

A porta-voz Millie Hinton disse: “Essa orientação restritiva está condenando muitos pacientes a ter que pagar em particular por medicamentos que transformam vidas, ficar sem ou considerar acessar fontes ilegais e não regulamentadas”.

Como chegamos a esse ponto?

A lei foi alterada em novembro de 2018 para permitir que médicos especialistas prescrevessem medicamentos para maconha, mas isso aconteceu em apenas alguns casos.

Instituições de caridade com esclerose múltipla também argumentam que as diretrizes da NICE não vão longe o suficiente. Genevieve Edwards, da MS Society, disse que faz campanha pelo acesso ao Sativex há anos e “foi brilhante que o NICE finalmente ouviu”.

No entanto, ela disse que as diretrizes não foram suficientemente longe porque não foram recomendados tratamentos à base de cannabis para tratar a dor – um sintoma comum da EM.

Ela também acrescentou que ainda mais pessoas podem perder “porque o Sativex seria financiado por órgãos locais – que podem não ter o recurso necessário para prescrevê-lo”.

Ley Sander, diretor médico da Epilepsy Society e professor de neurologia da UCL, disse que a necessidade de novas opções de tratamento é inquestionável e é reconfortante que o novo medicamento tenha passado por ensaios clínicos e processos regulatórios.

“Estou satisfeito hoje que o Epidyolex seja disponibilizado no País de Gales através do nosso Novo Fundo de Tratamento, o que significa que estará disponível em não mais de 60 dias”, disse Vaughan Gething, ministro da Saúde do País de Gales

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Capacete para escaneamento cerebral ajuda a examinar crianças em movimento

Cientistas usaram um capacete de bicicleta modificado para criar um dispositivo que pode monitorar a atividade cerebral em crianças em tempo real.

A tecnologia pode eventualmente ser usada em pacientes com distúrbios do desenvolvimento neurológico, como autismo e epilepsia, relataram os pesquisadores nesta terça-feira na revista Nature Communications.

Os pesquisadores inseriram um dispositivo vestível de magnetoencefalografia (MEG) em um capacete de bicicleta padrão e registraram com sucesso a resposta do cérebro ao toque materno em crianças de entre dois e cinco anos.

Com o equipamento padrão, é muito difícil examinar o cérebro de crianças com menos de oito anos, disse Matthew Brookes, que trabalhou no dispositivo e é autor do relatório.

“Isso ocorre porque em crianças pequenas, suas cabeças são pequenas demais para caber corretamente no scanner e isso significa perda de qualidade dos dados”, disse à AFP. “Além disso, indivíduos mais jovens tendem a se mover mais”.

O dispositivo está equipado com sensores pequenos e leves que impedem que a verificação seja afetada pelo movimento da cabeça.

As crianças podem usar réplicas do capacete em casa para reduzir a ansiedade durante o exame, disseram os pesquisadores.

A tecnologia não se limita às crianças.

Brookes e seus colegas usaram versões maiores do dispositivo para registrar a atividade cerebral em um adolescente que jogava videogame e em um garoto de 24 anos que tocava ukelele.

Brookes disse que seus colegas da Universidade College London estão trabalhando no uso clínico do dispositivo MEG – incluindo diagnóstico e mapeamento cirúrgico – para adultos e crianças com epilepsia.

Ele espera que as aplicações possam ser expandidas para outras condições, como lesão cerebral, saúde mental e demência.

“Esperamos que (o dispositivo) seja usado para examinar pacientes dentro de dois a três anos”.

Destak // Saúde

Ambulatório de dieta cetogênica do HU é o primeiro do Brasil a tratar exclusivamente de adultos

Segundo o relatório “Epilepsia, um imperativo de saúde pública (em tradução livre)”, divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 75% das pessoas diagnosticadas com epilepsia em países de baixa renda, como o Brasil, não recebem o tratamento adequado. Além desse número, cerca de 20% das pessoas diagnosticadas com epilepsia é, ainda, farmacorresistente, sofrem da denominada epilepsia refratária. Neste cenário, o ambulatório nutricional de dieta cetogênica do Hospital Universitário (HU) da UFSC é o primeiro e único do Brasil a oferecer o tratamento para esta enfermidade exclusivamente para adultos.

A epilepsia refratária refere-se a casos em que não se consegue diminuir ou controlar o número de crises epilépticas com uso de até dois medicamentos, tratamento mais comum.  A dieta cetogênica surge então, em 1920, como um tratamento alternativo, indicado principalmente para esses pacientes. Baseada quase exclusivamente em lipídios, a terapia cetogênica restringe a alimentação a gorduras e proteínas para alterar o funcionamento do sistema nervoso central, diminuindo as descargas elétricas desencadeadas durante as crises epilépticas. Em relação às demais terapias, como a intervenção cirúrgica, o tratamento através de estímulos elétricos ou ainda o farmacológico, a dieta cetogênica é uma das menos invasivas.

De acordo com as professoras Letícia Ribeiro e Julia Moreira, coordenadoras do ambulatório, o principal motivo da escolha pelos adultos como público alvo é a carência de atendimento para esta faixa etária. Soma-se a isso o fato de a eficácia em tratamentos infantis ser superior em relação aos adultos. Entre as crianças com epilepsia, a dieta cetogênica costuma melhorar as crises entre 90% e 100% dos casos, enquanto a resposta dos adultos varia entre 50% a 60%.

O tratamento utilizado no HU é projetado com base no protocolo do Hospital Johns Hopkins, da Universidade de Baltimore (UB), nos Estados Unidos, referência mundial em terapia para pacientes com epilepsia farmacorresistente. Essa convenção determina como a dieta deve ser aplicada e quais procedimentos devem ser realizados antes e durante a terapia. A depender do nível de intensidade das crises epiléticas, muitos não podem caminhar na rua sozinhos ou cozinhar por conta própria. O tratamento adequado pode trazer de volta a autonomia para alguns desses pacientes.

Todo o atendimento é feito por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), sem custos hospitalares. Em geral, logo de início, todas as pessoas atendidas concordam em entrar na dieta por, no mínimo, três meses, podendo se estender por até dois anos, quando uma nova avaliação é feita para encerrar a terapia ou não. As consultas ocorrem a cada 30 dias, com monitoramento e acompanhamento em tempo integral. “Os nossos pacientes têm acesso livre aos nossos telefones pessoais, para tirar dúvidas, principalmente do que pode e não pode comer”, comenta a professora Letícia.

A dieta cetogênica aumenta o consumo de lipídios, enquanto diminui o de carboidratos, componente presente na maior parte dos alimentos. Gorduras e proteínas passam a ser mais ingeridas; em contrapartida, o consumo de amido, glicose, lactose e outros de carboidratos é restrito ao equivalente de 5% a 10% do valor calórico total (VCT). Para o café da manhã, por exemplo, os pacientes precisam cortar alimentos habituais do consumo geral dos brasileiros, como pães, leite e qualquer tipo de açúcar. No lugar desses alimentos, as nutricionistas sugerem panquecas cetogênicas, leite de coco e adoçantes industrializados. O prato mais habitual da culinária brasileira, o arroz e feijão, também precisa ser substituído.

“Não é fácil! Quase tudo tem carboidrato”, comenta a neurologista do projeto, Mariana Lunardi, adepta da dieta por oito meses. Por causa da especificidade da dieta, os membros do ambulatório produziram um livro de receitas para encaminhar aos pacientes, com dicas de alimentos para a maior parte das situações. “Levando em consideração que a maioria das pessoas que a gente atende é de baixa renda, estudamos os produtos que mais se encaixavam nessa realidade”, completou.

Estratégia de emagrecimento

A dieta cetogênica é comumente divulgada, também, como estratégia de emagrecimento, justamente por diminuir o consumo de carboidratos. No entanto, conforme relata a professora Júlia, o emagrecimento é um efeito colateral da terapia. Pela sua configuração, desbalanceada em micronutrientes, a dieta cetogênica expõe o indivíduo a risco de algumas deficiências nutricionais. “Não é uma dieta que se possa sair fazendo sem nenhuma orientação ou acompanhamento”, acrescenta.

Como os pacientes não podem comer um grande número de frutas, legumes ou cereais, alguns efeitos colaterais são esperados, como constipação, dor de cabeça, cansaço, fadiga, sono e apatia. Segundo as nutricionistas do ambulatório, esses efeitos podem acontecer até que o metabolismo se adapte à dieta. O tempo pode variar de uma semana a alguns meses. “É um tratamento como qualquer outro, tem que ser seguido à risca. Qualquer pisada fora pode comprometer a eficácia”, alerta a professora Letícia.

Erick Souza / Estagiário de Jornalismo / Agecom / UFSC

Ciclo de palestras sobre epilepsia 2019

Canabidiol Verdades e Mitos

Palestrante: Dr. Lécio Figueira Pinto

Evento gratuito e aberto ao público

Palestra dirigida a profissionais, estudantes, pessoas com epilepsia, familiares e interessados pelo tema.

Certificado de participação aos presentes.

Transmissão ao vivo em nossa página –

f live /AssociaçãoBrasileiradeEpilepsia

Data do evento: 12 de novembro de 2019

Horário: Das 19h20 ás 21h00

Local: Anfiteatro Jóse Cassiano de Figueiredo (UNIFESP)

Rua Botucatu, 862, Vila Clementino – São Paulo – (SP)

(Próximo as estações do metrô Santa Cruz e Hospital São Paulo)

Registro de canabidiol é questão de bom senso, diz diretor da Anvisa

A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para autorizar ou não plantio de Cannabis sativa e o registro de medicamentos à base de canabidiol – substância derivada da Cannabis, planta popularmente conhecida como maconha -, deve ser concluída até o dia 12 de novembro. A expectativa do presidente da Anvisa, William Dib, é a de que “o bom senso prevaleça” e a matéria seja aprovada pela diretoria da agência.

Dois regulamentos estão tramitando sobre a questão. Um para autorizar o plantio e outro para autorizar o registro de medicamentos à base da Cannabis sativa. Depois de passarem por consultas públicas, as propostas foram reformuladas, assimilando algumas das contribuições apresentadas.

 O  diretor-presidente da Anvisa, William Dib, durante reunião da Diretoria Colegiada  para discutir, requisitos técnicos e administrativos para o cultivo da planta Cannabis spp. exclusivamente para fins medicinais ou científicos.

“Dois diretores pediram vista do caso separadamente mas, considerando o prazo regimental, acredito que no máximo até 12 de novembro será definida a votação”, disse Dib à Agência Brasil hoje (23), após participar do Fórum Terapias Gênicas Avançadas: Geração de valor na jornada do paciente e do sistema de saúde, em Brasília.

“A expectativa é de que a ciência e o bom senso sejam vitoriosos, porque é bom para a população e para a sociedade, que está carente de alternativas terapêuticas. Acho que é um grande passo para uma alternativa terapêutica mais segura e eficaz, e com um custo mais baixo”, acrescentou.

Paciência

Às famílias dos que dependem desse tipo de medicamento – usado para o tratamento de doenças e sintomas relacionados à epilepsia, Mal de Parkinson, esquizofrenia, autismo, ansiedade, insônia, dores e inflamações, além de náuseas, vômitos e espasmos causados por quimioterapia, inapetência – o presidente da Anvisa pediu paciência, “porque a espera resultará em uma proposta mais bem elaborada”.

“O momento é de serenidade. Não é um momento para a gente reclamar, porque um pedido de vista é, antes de mais nada, um pedido para aprimorar o projeto. Acredito que os diretores que pediram vista o fizeram para apresentar uma proposta que, na opinião deles, seja melhor do que a proposta que a gente apresentou”, disse o presidente da Anvisa, que é o autor da proposta que deu início à tramitação na agência.

“Estamos abertos a essa discussão. Não há motivo para perdermos a esperança de que vá ser aprovado e que em breve as famílias tenham condições de chegar à farmácia e ter acesso ao medicamento”, acrescentou.

Às pessoas radicais ao uso desse tipo de medicação, Dib sugere que “estudem mais, leiam mais e absorvam mais” as informações sobre o tema. “Discussões como essa já aconteceram há mais de 100 anos, quando os opiáceos [derivados do ópio] foram transformados em substâncias importantes para a analgesia, para terapias alternativas. Hoje em dia já existem mais de 350 medicamentos aprovados e registrados no Brasil, que têm origem nos opiáceos. Os produtos que serão liberados pela Anvisa não vão causar nem dependência física nem dependência psíquica”, disse.

EBC