Ambulatório de dieta cetogênica do HU é o primeiro do Brasil a tratar exclusivamente de adultos

Segundo o relatório “Epilepsia, um imperativo de saúde pública (em tradução livre)”, divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 75% das pessoas diagnosticadas com epilepsia em países de baixa renda, como o Brasil, não recebem o tratamento adequado. Além desse número, cerca de 20% das pessoas diagnosticadas com epilepsia é, ainda, farmacorresistente, sofrem da denominada epilepsia refratária. Neste cenário, o ambulatório nutricional de dieta cetogênica do Hospital Universitário (HU) da UFSC é o primeiro e único do Brasil a oferecer o tratamento para esta enfermidade exclusivamente para adultos.

A epilepsia refratária refere-se a casos em que não se consegue diminuir ou controlar o número de crises epilépticas com uso de até dois medicamentos, tratamento mais comum.  A dieta cetogênica surge então, em 1920, como um tratamento alternativo, indicado principalmente para esses pacientes. Baseada quase exclusivamente em lipídios, a terapia cetogênica restringe a alimentação a gorduras e proteínas para alterar o funcionamento do sistema nervoso central, diminuindo as descargas elétricas desencadeadas durante as crises epilépticas. Em relação às demais terapias, como a intervenção cirúrgica, o tratamento através de estímulos elétricos ou ainda o farmacológico, a dieta cetogênica é uma das menos invasivas.

De acordo com as professoras Letícia Ribeiro e Julia Moreira, coordenadoras do ambulatório, o principal motivo da escolha pelos adultos como público alvo é a carência de atendimento para esta faixa etária. Soma-se a isso o fato de a eficácia em tratamentos infantis ser superior em relação aos adultos. Entre as crianças com epilepsia, a dieta cetogênica costuma melhorar as crises entre 90% e 100% dos casos, enquanto a resposta dos adultos varia entre 50% a 60%.

O tratamento utilizado no HU é projetado com base no protocolo do Hospital Johns Hopkins, da Universidade de Baltimore (UB), nos Estados Unidos, referência mundial em terapia para pacientes com epilepsia farmacorresistente. Essa convenção determina como a dieta deve ser aplicada e quais procedimentos devem ser realizados antes e durante a terapia. A depender do nível de intensidade das crises epiléticas, muitos não podem caminhar na rua sozinhos ou cozinhar por conta própria. O tratamento adequado pode trazer de volta a autonomia para alguns desses pacientes.

Todo o atendimento é feito por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), sem custos hospitalares. Em geral, logo de início, todas as pessoas atendidas concordam em entrar na dieta por, no mínimo, três meses, podendo se estender por até dois anos, quando uma nova avaliação é feita para encerrar a terapia ou não. As consultas ocorrem a cada 30 dias, com monitoramento e acompanhamento em tempo integral. “Os nossos pacientes têm acesso livre aos nossos telefones pessoais, para tirar dúvidas, principalmente do que pode e não pode comer”, comenta a professora Letícia.

A dieta cetogênica aumenta o consumo de lipídios, enquanto diminui o de carboidratos, componente presente na maior parte dos alimentos. Gorduras e proteínas passam a ser mais ingeridas; em contrapartida, o consumo de amido, glicose, lactose e outros de carboidratos é restrito ao equivalente de 5% a 10% do valor calórico total (VCT). Para o café da manhã, por exemplo, os pacientes precisam cortar alimentos habituais do consumo geral dos brasileiros, como pães, leite e qualquer tipo de açúcar. No lugar desses alimentos, as nutricionistas sugerem panquecas cetogênicas, leite de coco e adoçantes industrializados. O prato mais habitual da culinária brasileira, o arroz e feijão, também precisa ser substituído.

“Não é fácil! Quase tudo tem carboidrato”, comenta a neurologista do projeto, Mariana Lunardi, adepta da dieta por oito meses. Por causa da especificidade da dieta, os membros do ambulatório produziram um livro de receitas para encaminhar aos pacientes, com dicas de alimentos para a maior parte das situações. “Levando em consideração que a maioria das pessoas que a gente atende é de baixa renda, estudamos os produtos que mais se encaixavam nessa realidade”, completou.

Estratégia de emagrecimento

A dieta cetogênica é comumente divulgada, também, como estratégia de emagrecimento, justamente por diminuir o consumo de carboidratos. No entanto, conforme relata a professora Júlia, o emagrecimento é um efeito colateral da terapia. Pela sua configuração, desbalanceada em micronutrientes, a dieta cetogênica expõe o indivíduo a risco de algumas deficiências nutricionais. “Não é uma dieta que se possa sair fazendo sem nenhuma orientação ou acompanhamento”, acrescenta.

Como os pacientes não podem comer um grande número de frutas, legumes ou cereais, alguns efeitos colaterais são esperados, como constipação, dor de cabeça, cansaço, fadiga, sono e apatia. Segundo as nutricionistas do ambulatório, esses efeitos podem acontecer até que o metabolismo se adapte à dieta. O tempo pode variar de uma semana a alguns meses. “É um tratamento como qualquer outro, tem que ser seguido à risca. Qualquer pisada fora pode comprometer a eficácia”, alerta a professora Letícia.

Erick Souza / Estagiário de Jornalismo / Agecom / UFSC

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